Nosso desafio é recuperar e massificar agriculturas que não provocam ecocídios e comprometam a existência de ecossistemas inteiros, como é o caso do modelo sintético-industrial adotado e imposto pelo núcleo imperial, dependente principalmente de petróleo que, como consequência, provoca crises hídricas, contamina a natureza e cria desertos.
Primeiro, precisamos tomar como exemplo as boas práticas utilizadas pelas florestas, por milhões de anos, para criar sistemas diversificados, vivos, férteis, com comida e água em abundância
Sem floresta, não há água, pois as árvores são extremamente importantes para os ciclos de chuvas, liberando a água para o céu atráves de suas folhas, criando rios aéreos, e permitindo a infiltração em aquíferos e lençóis freáticos graças às suas raízes profundas.
Além disso, para que nossas roças e florestam cresçam com saúde, não podemos ignorar as vidas que permitem que isso aconteça. Fungos e bactérias são exemplos conhecidos, muitas vezes considerados apenas como causadores de doenças mas que, na verdade, são diversos e essenciais para as plantas e ecossistemas, responsáveis por parte da capacidade das plantas de terem um acesso maior a nutrientes e água, além de as protegerem de certas doenças, tudo isso em troca de comida que as próprias plantas liberam pelas raízes. Entretanto, são vidas frágeis que são aniquiladas caso sejam usados veneno, adubos sintéticos e aração frequente, além da falta de máteria e cobertura orgânicas.
Para criar cultivos e florestas saudáveis, há alguns princípios importantes:
- Manter a terra coberta com matéria orgânica e sombra.
- Uso de plantas pioneiras/rústicas.
- Plantar em diversidade e de forma adensada.
- Cultivar de acordo com estratos e sucessão natural
- Realizar podas.
- Arar apenas uma vez ou arar sem revolvimento.
Manter a terra coberta
Nas florestas, a terra nunca está exposta, graças aos processos naturais que fornecem matéria orgânica, também chamada de biomassa ou serrapilheira, como folhas, galhos, frutos ou até árvores inteiras. Este é o alimento dos micro e macro seres da terra, sejam minhocas, bactérias ou fungos, que vivem no subsolo ou superfície e que, ao ajudarem a matéria se decompor, esta se tornará alimento das plantas. Não dependemos de insumos químicos prejudiciais porque todo nosso adubo são as próprias plantas do território.
Um fator importante para aumentar a fertilidade com cobertura é impedir que os raios solares atinjam diretamente a terra, o que faz com que a água evapore mais rápido, provocando rachaduras, matando a vida mais superficial e aquecendo-a além do suportável. Além disso, evita a erosão pela chuva e vento, impedindo que a camada superior seja levada embora, aumentando a infiltração nos lençóis e aquíferos. Ou seja, deixar a terra exposta faz com que a gente perca as vidas terrestres, a própria terra pela erosão e a água que não infiltra para as camadas inferiores.
Plantio de espécies resistentes a pouca água, terra dura e baixa disponibilidade de nutrientes.
Cada espécie possui necessidade diferentes de qualidade da terra e aquelas mais rústicas e com rápido crescimento são importantíssimas pois elas irão melhorar as condições do ambiente para que espécies mais exigentes, especialmente as culturas alimentares. Muitas vezes é necessário plantar espécies de outros biomas onde as plantas nativas já não conseguem lidar com as condições atuais da terra e falta de água de forma rápida, o que pode levar centenas de anos para o retorno da floresta sem intervenção humana. Por isso, é comum plantar eucalipto, leucena, guandu, acacia mangium, feijão de porco e mandioca, entre outras.
Plantar em diversidade de forma adensada
Monocultura, o cultivo de apenas uma espécie em determinada área, são pouco resistentes à falta de água e mais propensas a serem atacadas por insetos ou doenças, pois não há diversidade de raízes e vida terrestre.
As florestas são resilientes pois há diversidade de plantas e troca de água e nutrientes pelas suas raízes, ou seja, elas são capazes de se ajudarem. Sendo assim, nós também iremos plantar árvores em nossas roças, mas não é preciso deixa-las crescerem até sombrearem demais o espaço: elas são nossa fonte de fertilidade, seja por causa da matéria orgânica que fornecem, seja pela sombra que criam, seja por suas raízes, que abrigam vida, afofam a terra, aumenta a infiltração de água e também compartilham água e nutrientes de camadas mais profundas para nossos cultivos.
Plantios adensados são plantios próximos, em quantidade maior do que a definitiva futuramente, principalmente para frutíferas, levando em consideração que, se plantarmos apenas uma semente ou muda em uma área desejada, corremos o risco de que aquela planta não cresça bem naquele lugar, nos deixando sem outras opções melhores, ou seja, não temos a liberdade de escolha pela planta mais sadia e produtiva.
Cultivar de acordo com estratos e sucessão natural.
O estrato de uma planta pode ser definido como a necessidade de luz solar que ela precisa para um bom desenvolvimento em seu habitat natural. O cafézeiro, por exemplo, é uma árvore que vive embaixo de outras árvores em seu habitat de origem, na Afríca Oriental, em uma região em que, em uma parte do ano, essas árvores perdem as folhas, entrando muita luz nas camadas mais baixas, o que faz com que o café floresça. Porém, a monocultura de café a pleno sol cria um habitat muito diferente do natural, criando mais problemas e estresse para as plantas, o que resulta em doenças e ataques de insetos, criando um ciclo de aplicação de veneno e adubo sintético.
| Estratos | Plantas |
|---|---|
| Emergente | Milho, mamão, eucalipto, mamona, girassol, crotalária, pequi, castanha do brasil, jatobá |
| Alto | Manga, abacate, mandioca, pimentas, guandu, brócolis, tomate, couve, algodão, maracujá, |
| Médio | Citrus, bananas, alface, beterraba, cebola, inhame, alho, cenoura, jabuticaba, pitanga, urucum, pokan, amora, |
| Baixo | Cacau, espinafre, batata-doce, café, cará, taioba, feião preto, feijão carioca, maxixe, soja, amendoim, gengibre, abacaxi |
Assim, podemos dinamizar nossas roças e plantar mais espécies em uma mesma área, ao mesmo tempo. Hortaliças, de ciclo curto e árvores, de ciclo mais longo, compartilham espaços próximos, levando em consideração o tempo de crescimento e maturação de cada planta.
A sucessão natural é um processo em que plantas menos exigentes em fertilidade e que vivem menos criam as condições para que as mais exigentes e longevas possam crescer sem problemas, mas também a morte ou retirada de uma planta de ciclo curto libera luz e espaço para outras de ciclo longo. No estrato emergente, a sucessão poderia ser de milho, logo em seguida a mamona, o eucalipto e, por fim, uma castanhheira.
Podas (Manejo)
Fonte de matéria orgânica no local, faz com que as plantas cresçam com vigor, já que, após a poda, elas liberam informação de crescimento pelas raízes que também é transmitida para outras plantas ao redor, além de liberar luz para os estratos mais baixos. Disturbios são comuns em florestas: uma árvore grande cai e abre espaço e luz
para que um novo ciclo comece; animais de porte grande, como girafas, elefantes e gorilas, comem as folhas das árvores; tempestades derrubam galhos.
Nossa função também é realizar distúrbios para que nosso sistema não fique estagnado, seja porque falta luz, ou algumas plantas começam a focar em maturar sementes, o que faz com que plantas próximas cresçam mais devagar.
Existem plantas que são mais usadas para podar e fornecer biomassa, crescendo rápido mesmo após podas de toda a copa ou no "pé", como é o caso do eucalipto, margaridão, bananeira, leucena, gliricídia, campim mombaça, moringa, manga, mamona, guandu. O objetivo é ter um bom fornecimento de madeira para cobrir a terra, que é um fator importante para criar terra preta.
O café e cacau, por exemplo, podem ser cultivados com árvores que são podadas anualmente, liberando informação de crescimento pelas raízes, cobrindo a terra com muita matéria orgânica e criando condições mais semelhantes às naturais, o que reflete na qualidado dos frutos e resistência do sistema como um todo.
Aração única ou sem revolvimento
Tornou-se comum o uso de tratores para arar a terra anualmente, aumentando os níveis de erosão e perda de fertilidade, visto que o revolvimento constante do solo expõe a microvida, que é responsável pela decomposição da matéria orgânica, ao sol, além de causar a perda das camadas mas férteis durante as chuvas. A terra é viva e possui uma estrutura complexa criada pelos seres que nela habitam; na floresta não há aração com revolvimento, a terra é solta e grumosa, graças à cobertura orgânica, as micro e macro vidas e as raízes das plantas. Não há necessidade de aração. Por isso, em terras degradadas e compactadas, realizamos a aração apenas uma vez, antes do plantio, para um bom desenvolvimento das raízes ou, caso seja necessário, principalmente em hortas, podemos utilizar um garfo subsolador, que afofa a terra sem revolvê-la.
Livros disponíveis em: Ana Maria Primavesi, 1980. Larissa Mies Bombardi, 2023 Fernando Rebello, Daniela Sakamoto, 2021. Antonio Bispo dos Santos, 2023. Várias AutoriasSugestões de leitura:
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Agricultura Sintrópica segundo Ernst Gostch.
A terra dá, a terra quer.
Agroflorestando o mundo de facão a trator.